A DeepSeek está prestes a lançar o V4, seu primeiro modelo de IA de grande porte em mais de um ano. O timing não é acidental: o lançamento coincide com as sessões anuais do parlamento chinês, onde Pequim deve apresentar um roadmap tecnológico com foco em IA, robótica humanoide e exploração espacial.

O V4 chama atenção não só pelo tamanho — 1 trilhão de parâmetros — mas pela decisão deliberada de excluir Nvidia e AMD do pipeline de otimização. Em vez disso, a DeepSeek trabalhou com Huawei Ascend e Cambricon para que o modelo rode melhor em hardware chinês desde o primeiro dia.

O que é o DeepSeek V4

O V4 é um modelo multimodal capaz de gerar texto, imagens e vídeo. Com 1 trilhão de parâmetros totais e cerca de 32 bilhões de parâmetros ativos (via Mixture of Experts), ele opera com janela de contexto de 1 milhão de tokens.

Três inovações arquiteturais definem o V4:

  • Manifold-Constrained Hyper-Connections (mHC) estabilizam o treinamento em escala de trilhão de parâmetros
  • Engram Conditional Memory permite recuperação eficiente em contextos de 1 milhão de tokens
  • Sparse Attention aprimorado com Lightning Indexer seleciona 16 especialistas por token, contra 2 a 4 no V3.2

O modelo será open-source sob licença Apache 2.0, seguindo a estratégia que já rendeu à DeepSeek mais de 75 milhões de downloads no Hugging Face.

A aposta em hardware chinês

A parte mais relevante do V4 não é a arquitetura. É a escolha de hardware.

A DeepSeek concedeu à divisão Ascend da Huawei e à Cambricon semanas de antecedência para otimizar seus processadores antes do lançamento público. Nvidia e AMD foram excluídas desse acesso.

Na prática, o V4 vai rodar melhor em chips chineses no lançamento. Segundo relatos de Reuters e Financial Times, é a primeira vez que um modelo de IA de fronteira prioriza hardware não-americano na otimização.

A estratégia cria um efeito de rede: desenvolvedores que adotam o V4 cedo vão preferir o hardware onde ele performa melhor. Com o tempo, isso pode reduzir a relevância das restrições americanas de exportação de chips. O ecossistema de software se desloca para alternativas domésticas, e o controle de hardware perde parte de sua alavancagem.

O timing político

O lançamento do V4 está programado para a primeira semana de março de 2026, dias antes das Duas Sessões (两会), as reuniões parlamentares anuais da China que começam em 4 de março. Neste ano, o parlamento deve aprovar o 15o Plano Quinquenal (2026-2030), que define metas estratégicas e direciona investimentos governamentais.

IA, robótica humanoide e exploração espacial são os pilares esperados do roadmap tecnológico. A China já conta com mais de 150 empresas de robôs humanoides, e a Unitree planeja entregar 20 mil unidades em 2026, contra 5.500 no ano anterior.

O timing reforça o posicionamento da DeepSeek como referência nacional em IA: uma empresa que compete com modelos americanos enquanto roda em hardware doméstico.

Conclusão

O V4 muda a dinâmica da corrida por IA entre EUA e China. Não pelo número de parâmetros ou pela capacidade multimodal, que são evoluções esperadas. A novidade real é a construção de um ecossistema de software que torna chips chineses a opção natural para rodar modelos de ponta.

Se o V4 entregar performance competitiva em Huawei Ascend, o impacto vai além de benchmarks. Desafia a premissa de que controles de exportação americanos podem, sozinhos, frear o avanço chinês em IA. Os primeiros benchmarks independentes vão dizer se essa aposta técnica se sustenta.

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