Em 2015, o Google apresentou o AMP (Accelerated Mobile Pages) como a solução definitiva para a lentidão da web mobile. A proposta era ousada: um formato restrito de HTML que garantia carregamento quase instantâneo em dispositivos móveis. Em troca, os publishers ganhavam posições privilegiadas no Google Search, incluindo o cobiçado carrossel de Top Stories.
Onze anos depois, a realidade é bem diferente. O AMP perdeu seu tratamento preferencial no ranking do Google, grandes publishers abandonaram a tecnologia e frameworks modernos entregam performance superior sem nenhuma das restrições que o AMP impunha. Essa é a história de uma tecnologia que nasceu como promessa e se transformou em lição.
O que era o Google AMP e por que ele importava
O AMP funcionava como um subconjunto restrito de HTML. Nada de JavaScript customizado, CSS limitado a 75KB inline, imagens carregadas via um componente proprietário do Google. Em troca dessas restrições, o Google armazenava as páginas AMP em seu próprio cache (o famoso CDN do Google) e as servia diretamente dos seus servidores.
Para publishers e donos de blogs, a equação era simples. Quem adotava AMP ganhava três vantagens concretas: o selo de raio nos resultados de busca (sinalizando ao usuário que a página era rápida), posição prioritária no carrossel de Top Stories no mobile e carregamento pré-fetched que fazia a página abrir de forma quase instantânea.
O problema é que essa equação escondia um custo alto. As páginas AMP eram servidas a partir de URLs do Google (google.com/amp/...), não do domínio original do publisher. Isso significava que o tráfego, na prática, passava pelo Google antes de chegar ao conteúdo. Para muitos desenvolvedores e defensores da web aberta, isso representava uma centralização perigosa.
"There is a sense in which AMP is a Google-built version of the web. We are moving from a world where you can put anything on your website to one where you can't because Google says so." — Joshua Benton, Nieman Journalism Lab
O começo do fim: quando o Google mudou as regras
O primeiro sinal de que o AMP estava perdendo relevância veio em maio de 2020, quando o Google anunciou que o formato deixaria de ser requisito para aparecer no carrossel de Top Stories. Em 2021, o Google removeu o selo de raio dos resultados de busca, eliminando o diferencial visual que incentivava cliques em páginas AMP.
A mudança mais significativa, porém, foi a introdução do Page Experience Update, que substituiu o tratamento preferencial do AMP por uma avaliação baseada em Core Web Vitals. A partir daquele momento, qualquer página que atingisse boas métricas de LCP (Largest Contentful Paint), INP (Interaction to Next Paint) e CLS (Cumulative Layout Shift) recebia o mesmo tratamento que uma página AMP nos rankings.
Na prática, o Google admitiu que o problema nunca foi a falta de um formato proprietário. O problema era performance. E performance pode ser atingida de diversas formas, não apenas com AMP.
Quem abandonou o AMP e o que aconteceu
Com a remoção dos incentivos de ranking, grandes publishers começaram a abandonar o AMP. E os resultados surpreenderam até os mais céticos.
A Future plc, grupo britânico com mais de 200 marcas de mídia especializada incluindo TechRadar, PC Gamer e Tom's Guide, reportou aumento de até 30% no tráfego após desativar o AMP. A Chefkoch, maior site de receitas da Alemanha, desligou cerca de 600.000 URLs AMP sem nenhuma queda de visibilidade no Google. O Search Engine Land, referência em cobertura de SEO, documentou resultados similares após a migração.
O padrão se repetiu em diferentes nichos e tamanhos de site. A ausência do AMP não causou penalização. Em muitos casos, o tráfego orgânico até aumentou, porque as páginas canônicas (sem AMP) ofereciam melhor experiência ao usuário, com funcionalidades que o formato restrito do AMP não permitia.
Core Web Vitals: o substituto natural
Os Core Web Vitals se tornaram o novo padrão de referência para performance web no Google. Ao contrário do AMP, que impunha um método específico (usar o formato proprietário), os Core Web Vitals medem resultados. Não importa como você otimiza seu site, desde que as métricas sejam boas.
As três métricas centrais são:
- LCP (Largest Contentful Paint) mede quanto tempo leva para o maior elemento visível da página ser renderizado. O ideal é abaixo de 2,5 segundos
- INP (Interaction to Next Paint) mede a responsividade da página a interações do usuário. O ideal é abaixo de 200 milissegundos
- CLS (Cumulative Layout Shift) mede a estabilidade visual da página durante o carregamento. O ideal é abaixo de 0,1
O Google confirmou que Core Web Vitals são um fator direto de ranking. Quando dois conteúdos têm qualidade similar, as métricas de performance funcionam como desempate. E o mais importante: essa avaliação é agnóstica de tecnologia. Não importa se você usa React, Vue, Astro, WordPress ou HTML estático.
Frameworks modernos tornaram o AMP obsoleto
Em 2015, quando o AMP foi lançado, a web mobile era genuinamente lenta. SPAs pesadas, bundles JavaScript imensos e servidores lentos eram a norma. O AMP resolvia isso na força bruta, eliminando JavaScript e cacheando tudo no Google.
Em 2026, o cenário é completamente diferente. Frameworks como Next.js, Nuxt e Astro entregam nativamente o que o AMP tentava forçar:
- SSR e SSG renderizam HTML no servidor, eliminando a dependência de JavaScript para a primeira pintura
- Code splitting automático garante que cada página carrega apenas o JavaScript necessário
- Otimização de imagens com componentes como
next/imagefaz lazy loading, conversão para WebP/AVIF e srcset responsivo sem configuração manual - Edge computing permite servir páginas a partir de CDNs globais com latência mínima
Um blog construído com Next.js e boas práticas de performance atinge scores perfeitos de Core Web Vitals sem nenhuma das restrições do AMP. Sem limitação de CSS, sem proibição de JavaScript, sem URLs servidas pelo Google, sem perda de controle sobre a experiência do usuário.
A lição que o AMP deixou para quem desenvolve
A ascensão e queda do AMP deixa uma lição que vai além de performance web. Quando uma plataforma cria um padrão proprietário e usa sua posição dominante para incentivá-lo, os desenvolvedores que aderem ficam vulneráveis ao momento em que a plataforma muda de ideia.
Isso não é exclusivo do AMP. Vimos padrões similares com o Facebook Instant Articles, com o Apple News Format e com diversas APIs que prometiam alcance em troca de lock-in. A história se repete: adoção entusiasmada, dependência crescente, mudança de regras e abandono gradual.
Para quem está construindo um blog ou site de conteúdo em 2026, a recomendação é clara. Invista em performance real, medida por Core Web Vitals, usando tecnologias web abertas e padronizadas. Use SSR ou SSG com um framework moderno. Otimize imagens, minimize JavaScript desnecessário e sirva conteúdo de um CDN.
Essas práticas não dependem da boa vontade de nenhuma empresa. Elas são fundamentadas em padrões web que existem há décadas e vão continuar funcionando independentemente de qual tecnologia proprietária entre ou saia de moda.
Conclusão
O Google AMP não é mais relevante para sites e blogs modernos. Sem tratamento preferencial no ranking, sem selo visual nos resultados de busca e com frameworks que entregam performance superior sem restrições, não há justificativa técnica ou estratégica para implementar AMP em um projeto novo.
Mais do que uma tecnologia obsoleta, o AMP é um lembrete. A web aberta funciona melhor quando a performance é atingida por métricas universais e não por formatos controlados por uma única empresa. Os Core Web Vitals, com todos os seus defeitos, pelo menos medem o resultado sem ditar o método. E para quem desenvolve, essa liberdade faz toda a diferença.
Referências pesquisadas nesta publicação
- Google AMP is dead! AMP pages no longer get preferential treatment in Google search - Plausible Analytics
- AMP for SEO: Still Relevant in 2026? Complete Guide & Decision Framework
- AMP Is Dead? Why Smart Developers Are Moving On in 2025 - CodeToDeploy
- Google has all but pulled the plug: Why publishers are dropping AMP en masse - OMR
- Core Web Vitals 2026: Technical SEO That Actually Moves the Needle - ALM Corp
- Google's new hands-off approach to AMP fails to satisfy its critics - Columbia Journalism Review
- The Web is Not Google, and Should Not be Just Google - Slashdot